domingo, 23 de novembro de 2008

Bem-aventurado ( 10 )

“Bem-aventurado o homem, Senhor, a quem repreendes” (Sl.94:12)

Pode-se dizer, diante deste texto, que há bem-aventuranças das quais não queremos participar e que não desejamos ter sobre nossa vida. Esta é uma delas. Pensar em bênção associada à repreensão não é comum, principalmente nestes dias de ufania e triunfalismo barato no meio evangélico, onde as dificuldades, lutas, provações e tribulações são vistas como manifestações de falta de fé.

O salmista tem uma visão confrontante com a que se propala hoje em muitos setores religiosos. É preciso coragem para dizer que repreensão é bem-aventurança. É estar na “contra-mão” da moda religiosa, já que esta ensina que é tudo serenidade, alegria, tranquilidade e descanso.

Ser repreendido significa ser admoestado pelo fato de estar fora da direção adequada dada pelo Senhor. O salmista liga a bem-aventurança da repreensão ao ensino da lei (Palavra de Deus) à pessoa. A repreensão faz com que a lei seja aplicada e a correção se verifique. Quem está sem correção (repreensão) encontra-se em uma situação de risco, no mínimo.

O escritor da Carta aos Hebreus faz coro com o salmista e afirma: “que filho há que o pai não corrige?” (Hb.127). Ele entende o privilégio da disciplina ou repreensão para crescimento e amadurecimento em relação ao conhecimento da vontade de Deus. Estar sem repreensão ou sem disciplia signifca estar fora da manifestaçõa graciosa do Senhor: “Se estais sem disciplina ...não sois filhos”(Hb.12:8).

Estes textos bíblicos soam deslocados e desconectados da realidade que nos cerca neste universo religioso do “cor de rosa” e “azul anil”. Não se pode falar em disciplina, repreensão, correção, admoestação pois afasta as pessoas, espanta os “clientes”, já que a ênfase é “vender o produto mais agradável” e de modo atrativo, com palavras doces, pois a vida já é por demais dura.

Ser repreendido pelo Senhor é também expressão de bem-aventurança, pois ficam claros Seu amor e interesse para conosco , a fim de nos levar a conhecer Sua Lei e Vontade, que são sempre o melhor para nós (Rm.12:2). Regozijemo-nos nesta bem-aventurança, mesmo que possa ser duro de suportá-la, pois certamente ela se manifesta para a glória de Deus e nosso maior bem.

Deus nos abençoe.

Rev. Paulo Audebert Delage

Bem-Aventurado ( 11 )


“Bem-aventurados os que guardam a retidão...” (Salmo 106:3)

A expressão de beatitude está no plural, indicando que todos os que assim procedem, estão debaixo de seu alcance. Tal bem-aventurança se vincula ao exercício da retidão ou integridade.

É mister notar que a sequência do verso nos leva a perceber que a retidão não se encontra “solta” ou desvinculada de balizamento, antes sua ligação se faz com o conceito de prática da justiça.

Neste sentido a retidão existe como expressão do exercício da justiça, ou seja, não estar em falta quanto a coisa alguma. A idéia de justiça (sobretudo no Novo Testamento) se liga a uma palavra cujo sentido é de não “haver vazio ou lacuna”. Pode-se ter como exemplo uma parede onde os tijolos são sobrepostos e ligados por argamassa, não ficando nenhum vazio entre eles. Isto é justiça; não ficar faltando nada. Isto é retidão; não ficar desvio nenhum.

Uma das figuras usadas na Bíblia, pelos profetas, era o prumo. Este instrumento serve, até hoje, nas construções para verificar a retidão das paredes, se estão ou não inclinadas ou com desvios. Esta figura se aplica à vida cristã e aponta o fato de que nosso viver não pode ter desvios ou tortuosidades.

Nestes dias de tanta injustiça e falta de retidão, inclusive dos que devem ser exemplos de tais posturas, faz-se imperativo que os cristãos evidenciem a retidão, mais do que falar sobre ela. Não se trata apenas da esfera política, onde ficamos, às vezes, enojados e revoltados com a injustiça e falta de retidão, mas os arraiais religiosos vão se tornando palco de tal forma de comportamento, mesmo no ambiente evangélico-protestante. As vidas duplas com fachada de aparência e ostentação no ambiente da comunidade cristã, no entanto, com desvios e tortuosidades a fazer corar de vergonha a Igreja de Cristo e manchar o Nome do Senhor. Já nos falava o apóstolo Paulo: “o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por vossa causa” (Rm.2:24), citando o profeta Isaías em seu livro de profecias (Is.,52:5).

Sejamos bem-aventurados andando em retidão e justiça, honrando o nome de cristão, ou então, por questão de justiça, deixe de chamar-se cristão.

Deus nos abençoe.

Rev. Paulo Audebert Delage.



domingo, 9 de novembro de 2008

Bem-aventurado ( 8 )

“Bem-aventurado aquele a quem escolhes” ( Salmo 65:4)

Nos limites das regras de interpretação bíblica (hermenêutica), tem-se assentado que os livros poéticos não são adequados para formular e estruturar doutrinas, nem que seja apropriado firmar doutrina em um versículo bíblico isolado do todo. Assim, não se poderia, nem se deveria utilizar este texto para sustentar a doutrina da eleição. Evidentemente que o texto aqui apontado faz referência ao fato de haver uma bem-aventurança grandiosa em relação àquele que é escolhido pelo Senhor.

A Escritura Sagrada fala, em vários e muitos lugares, sobre este aspecto da ação de Deus em escolher, eleger e predestinar, sendo impossível fugir ao fato desta afirmação clara na Bíblia. As interpretações sobre o entendimento do que seja tal escolha ou eleição, podem variar e variam.

Em nosso texto o salmista afirma que é bem-aventurado aquele a quem Deus escolhe. Pode-se ver que é uma ação de Deus a de escolher. É moção de Deus e não fruto do agir do que é abençoado. Não é por ser bem-aventurado que é escolhido, mas torna-se bem-aventurado pelo fato de ser escolhido. É manifestação livre da graciosa vontade do Deus soberano fazer com que seja experimentada por tal pessoa, Sua salvação e a comunhão com Ele.

O texto, na sua sequência, aponta o fato de que tal pessoa foi escolhida e assim aproximada do Senhor, levada à comunhão com Ele, à vivência com o Senhor que a escolheu. A comunhão com Deus, fruto da escolha de Deus, se manifesta no âmbito da habitação de Deus que, no Antigo Testamento, se vinculava mais fortemente ao templo.

A bem-aventurança ocorre, então, pelo fato de ser a pessoa escolhida, aproximada dAquele que a escolheu e levada a assistir (participar) nos átrios (lugar do templo) da habitação de Deus. Escolhido(a) para a salvação, para a comunhão e para o serviço.

Alegremo-nos por este privilégio de sermos bem-aventurados, escolhidos por Ele para esta santa comunhão.

Deus nos abençoe.

Rev. Paulo Audebert Delage.

Bem-aventurado (9)


“Bem-aventurado, Senhor, os que habitam em tua casa” (Salmo 84:4)

No boletim anterior foi lembrada a bem-aventurança daquele a quem o Senhor escolhe. Agora vemos que aquele a quem Deus escolhe tem o privilégio de habitar na “casa do Senhor”.

O salmista usa algumas palavras para expressar o sentido de local de habitação, todas ligadas à idéia de presença do Senhor: tabernáculos, átrios, altares, casa. São palavras distintas que traduzem uma única idéia, ou seja, a de presença do Senhor, lugar onde se pode ter comunhão com o Senhor, por ser lugar onde “Ele habita”.

Claro que após o advento de Cristo e Seus ensinos a noção de lugar de habitação de Deus sofre modificação, e já não se tem mais esta projeção de geografia limitada do sagrado e da presença de Deus. Todos os lugares são sacralizados e se tornam “locus” (local) de adoração e comunhão com Deus.

Ainda que se tenha esta idéia posta no Novo Testamento, deve-se entender que no salmo mencionado, não se pode pensar apenas em lugar físico ou geográfico(templo, Jerusalém, etc), mas em algo mais amplo, abrangente e transcendente. Fala-se de lugar “onde fazer o ninho”, habitar e louvar “perpetuamente”, com forte indicação de permanência e perenidade. Esta idéia não se liga apenas ao tabernáculo (móvel) e ao templo(fixo), mas a algo superior e mais sublime: a habitação de Deus.

De fato bem-aventurados os que habitam em “Tua casa”, pois não se trata do templo, já que ninguém ali habitava, mas apenas entravam e saíam. Trata-se da habitação eterna, na linguagem poética, muito bem posta no salmo 23: “habitarei na casa do Senhor para todo o sempre”. É sobre isto que o salmista fala: céu.

A beatitude ou bem-aventurança se dá pelo fato de podermos ter certeza de que “habitaremos” para sempre na “casa do Senhor”. Por isso não há lugar mais seguro, mais indicado, mais feliz, mais ditoso, mais precioso e melhor para “fazer seu ninho” ou colocar sua vida, que o “lugar de habitação de Deus”. Isto é possível somente se você receber a Cristo Jesus em Sua vida como seu salvador e senhor, aceitando-O pela fé e o sacrifício que Ele fez na cruz em seu lugar e a seu favor. Que você seja também um bem-aventurado por viver na “casa de Deus”.

Rev. Paulo Audebert Delage.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Bem-aventurado (7)


“ Bem-aventurado o que acode ao necessitado; o Senhor o livra no dia do mal”

É estimulante olhar o que o salmista fala na sequência deste versículo inicial do salmo. Há um número expressivo de promessas e de manifestações amoráveis do Senhor para com o que assim procede.

É claro que não se deve buscar esta bem-aventurança pelos efeitos dela decorrente, ou pelos resultados apontados pelo salmista nos versos 2 e 3. No entanto, o Senhor Se envolve com promessas para com aquele que assim se comporta, não pelos resultados, mas pelo fato em si e que é demonstração do caráter cristão regenerado.

O fato principal realçado pelo salmista é a relação que se estabelece com o necessitado. Esta figura sempre existirá ao nosso redor. Não há como não existir necessitado. Talvez não necessite provisão material imediata, ou sustento físico de alimento. Entretanto, certamente haverá alguma forma de necessidade. É possível que seja necessidade afetiva, carência emocional ou de companhia devido à solidão existencial na qual está mergulhada tal pessoa. Nossas carências-necessidades são muitas e variadas. O próprio salmista diz : “eu sou pobre e necessitado ...” ( Sl.40.17). Ora quem fala é o rei Davi, homem poderoso, rico, saudável, famoso, mas, também, necessitado.

Bem-aventurado aquele que acode ao que tem alguma necessidade. Acudir nem sempre é fácil ou tranquilo. Envolve muito mais do que dar algo e ver-se livre do que é carente. Aliás há quem imagina que isto seja socorrer. Isto é, na verdade, “só correr”, ou seja, você dá algo para ver-se livre do outro o quanto antes. Socorrer implica a idéia de envolver-se, solidarizar-se, compadecer-se. Dar o prato de comida, algum dinheiro para alimento ou remédio é um modo de socorro, mas a bem-aventurança envolve a solidariedade para com o que tem a necessidade, além do mero ato de lhe dar alguma coisa material. Em Cristo vemos o que seja socorrer e, por conseguinte, o que é ser bem-aventurado. Que sigamos o exemplo de nosso Senhor e sejamos igualmente bem-aventurados por acudirmos ao necessitado.

Deus nos abençoe.

Rev. Paulo Audebert Delage.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Bem aventurado (6)


“Bem-aventurado o homem que põe no Senhor a sua confiança” (Sl.40:4)

O contexto imediatamente anterior ao verso 4, nos fala da situação vivida pelo salmista. Sua experiência fôra extraordinária em termos da manifestação portentosa de Deus em resgatá-lo. Sua condição era de alguém chafurdado, atolado na lama e no lodo. Mas, a mão poderosa do Senhor o alcançou e o resgatou, tirando-o do meio movediço onde estava, dando-lhe a firmeza sobre a rocha.

Esta realidade de resgate e transformação operada pelo Senhor, levou o cantor sacro a louvar a Deus e reconhecer Seu poder, glória e misericórdia. Ele entendeu que toda a ação libertadora e restauradora repousava tão somente na vontade e poder de Deus. A impossibilidade de resgatar-se ficara clara para ele e, portanto, sua declaração é objetiva e precisa: “Bem-aventurado o homem que põe no Senhor a sua confiança”.

Esta expressão nos remete ao profeta Jeremias que , em certo modo, reflete a mesma postura do salmista quando afirma: “Bendito o homem que confia no Senhor” (Jr.17:7). Assim como o salmista entendera que não poderia confiar em si mesmo para seu resgate, de igual modo o profeta enfatiza: “maldito o homem que confia no homem”(Jr.,17:5). Nesta afirmação de Jeremias temos a tendência de pensar no outro homem (ser humano). Isto é verdade. Mas, a extensão deste ensino não está direcionada apenas ao outro, mas também a mim. Assim, maldito aquele que confia em sua própria força humana, em sua capacidade, bondade e virtude. Maldito é aquele que confia em si mesmo, em contraste com aquele que deposita no Senhor sua confiança.

A arrogância humana faz com que busquemos em nós o socorro e depositemos nossas esperanças em nossos restritos recursos. Daí o salmista (como Jeremias) dizer que a bem-aventurada confiança no Senhor é contrastada com a desdita ou infelicidade de pender ou inclinar-se para os arrogantes.

Deixemos de lado a prepotência e sobranceria humanas e confiemos com humildade no Senhor e na manifestação de Sua bondade, poder e graça, sendo assim chamados, mais uma vez, bem-aventurados.

Deus nos abençoe.

Rev. Paulo Audebert Delage

Bem aventurado (5)


“Bem-aventurado aquele cuja iniqüidade é perdoada e cujo pecado é coberto” (Salmo 32:1).

Que consolação, que segurança, que certeza, que bênção! O salmista faz esta afirmação que nos leva a descansar e transbordar de alegria o nosso interior. De fato, poder desfrutar esta certeza é algo sublime e maravilhoso.

Há aspectos vários na recepção desta palavra de bem-aventurança. A pessoa que desfruta desta convicção tem a possibilidade de ver resolvidos seus dramas e conflitos interiores gerados pela percepção da culpa. Ao ouvir esta palavra e dela se apropriar, tem seu espírito aliviado de sua dor aflitiva, pois sabe que já não lhe pode pesar mais nenhuma cobrança visto que sua iniqüidade já foi perdoada. Neste sentido a esfera emocional é alcançada por esta bênção e experimenta o descanso.

Quando pensamos que o rei Davi foi quem escreveu este texto, lembramo-nos que também o aspecto social é alcançado por esta bem-aventurança. Seu pecado foi coberto. Percebamos que não está mais encoberto. O pecado foi assumido como tal, confessado e tratado com arrependimento. O que era encoberto e gerava angústia e fazia adoecer, foi descoberto, ou seja, confessado, vindo a ser coberto, isto é, estar sob a ação perdoadora de Deus, mediante o sangue derramado para a remissão da iniqüidade e restauração do penitente. A restauração social é um efeito do perdão do pecado.

Além do mundo emocional e social, vemos que esta palavra do salmista traz-nos uma consolação sem comparações, já que nos garante a felicidade por termos nossas iniqüidades perdoadas. O sentido desta afirmação extravasa os limites do emocional e do social, alcançando as raias do espiritual e do eterno. Não há mais sobre mim a pena de condenação eterna, não mais pesa sobre mim o fardo da aflição perpétua longe da graça e da consolação do Senhor. O apóstolo Paulo afirma, juntando-se ao salmista: “nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Romanos 8:1). A consciência de que a iniqüidade foi perdoada é geradora de paz eterna.
Louvado seja o Senhor.

Nosso pecado confessado e abandonado, do qual nos arrependemos, está coberto pelo sangue de Jesus “que nos purifica” (I João 1:7). Por isso, bem-aventurado o que assim crê e que disto se apropria.

Deus seja louvado.

Rev. Paulo Audebert Delage.